A INFLAÇÃO FUGIU MESMO AO CONTROLE?

A INFLAÇÃO FUGIU MESMO AO CONTROLE?

Escrito por: Subseção Dieese/CUT-RJ Publicado em: 18/09/2014 Publicado em: 18/09/2014

Se aceitarmos a ideia de que temos todos o mesmo interesse no combate radical à inflação, custe o que custar, podemos, além de derrubar preços, derrubar os empregos, nossos empregos.

 

Nos últimos meses, de forma crescente, os meios de comunicação tentam nos assustar com manchetes que nos falam em descontrole inflacionário. Embora a grande mídia nunca retire completamente este tema de sua pauta, uma vez que há momentos do ano em que os preços crescem mais, especialmente os preços dos alimentos, percebe-se uma intensificação nas atenções dispensadas a este assunto no período recente.

Tal tratamento tem sido adotado devido ao fato de que a inflação acumulada em doze meses manteve-se próxima ao limite fixado pela política de metas, atualmente em 6,5%. Está fortemente associado, também, ao fato de estarmos próximos às eleições gerais no país e este é um tema que pode gerar desgaste ao governo federal. Daí o particular interesse midiático neste indicador econômico.

Quando falamos em inflação, imagina-se que todoadulto compreenda muito bem o seu significado, principalmente aqueles que viveram, também como adultos, nas décadas de 1980 e 1990. Contudo, não é incomum vermos e ouvirmos certas confusões a respeito do tema.

Inflação, segundo a teoria econômica, consiste na alta generalizada e contínua de preços. Isto é, não basta notarmos a elevação (mesmo que muito expressiva) de preços de alguns dos produtos que consumimos regularmente, para concluirmos que há inflação. É necessário que a alta dos preços, mesmo que pequena, seja verificada recorrentemente e altere o valor do conjuntode produtos de nossa cesta de consumo, para que se possa afirmarque há inflação. Do contrário, ocorre apenas uma mudança de preços relativos.

Isto posto, vale dizer que uma confusão frequente é aquela que se faz entre o nível do custo de vida e a sua variação. Nosso custo de vida pode situar-se em um nível muito alto, relativamente ao rendimento que recebemos, mas pode manter-se estável neste nível por longo período. Neste caso, o desconforto que sentimos, em razão do fato de que o “dinheiro não dá para todo o mês”,nãodeixa de existir, mas não pode ser atribuído à inflação.

Noutra situação, o custo de vida, mesmo que não seja tão elevado, pode estar variando, crescendo, em razão do aumento continuado dos preços de vários dos produtos que consumimos – neste caso, há inflação. Ou seja, uma mesma quantidade de mercadorias passa a exigir, em certo momento, um volume maior de moeda (dinheiro) para sua aquisição.

Outra confusão, ou razão para a sensação de que algo está fora do lugar, provém do fato de que os índices de preços são calculados com base numa cesta de consumo média. Não necessariamente esta cesta existe para uma determinada família, pois é definida a partir de uma média calculada dentre o consumo das diversas famílias, conforme seu nível de rendimento.

A título de exemplo, pense no seguinte: para uma família de idosos, a elevação (ou queda) da mensalidade escolar ou dos preços do material didático não tem, em princípio, impacto algum em seu custo de vida. Da mesma forma, para o casal jovem, com dois filhos pequenos, a queda (ou alta) dos preços dos remédios de uso contínuo, como os remédios para controle da pressão arterial, provavelmente não impacta seu orçamento familiar. Contudo, como a medida de inflação é baseada no comportamento dos preços da cesta de consumo média das famílias, leva em conta todos os itens que a compõe, cada um com seu respectivo peso no orçamento médio geral das famílias de referência.

Gráfico 1

 

Fonte: BCB.

Apesar destas possíveis confusões e mesmo limitações, dentre várias outras, que envolvem os índices de preços, estes continuam sendo ostermômetro (em nível mundial) da variação do custo de vida das famílias - não o termômetro do nível do custo de vida, lembre-se. No Brasil, em razão da já mencionada política de metas inflacionárias, que estabelece um alvo (meta) a ser perseguido para a inflação anual, o índice de preços de referência é o IPCA, Índice de Preços ao Consumidor Amplo, calculado pelo IBGE. E toda a vez que uma nova apuração é divulgada, este é o índice que a imprensa mais repercute, apesar de, nos contratos coletivos de trabalho, ser o INPC/IBGE a referência mais presente e, nas pautas de reivindicações, o ICV, calculado pelo DIEESE, também ser muito utilizado.

Nestes termos, a inflação anual, apesar de superar o centro da meta em vários momentos, não ultrapassa o limite superior da política, já há 10 anos. Além disso, segundo as próprias previsões do mercado financeiro, com uma projeção de 6,25% para o ano de 2014, este quadro se repetirá em 2014, como se pode perceber por intermédio do Gráfico 1.

Outra referência importante, para efeitos de comparação, é o histórico de inflação do país. O Brasil já viveu períodos em que realmente a inflação esteve alta e quase se transformou num processo hiperinflacionário, como já ocorreu em outros países – um dos casos mais emblemáticos de hiperinflação é o da Alemanha, no pós 1ª Guerra Mundial. 

Gráfico 2

 

Fonte: BCB.

O gráfico 2, que apresenta a variação acumulada em 12 meses para um período de tempo bem mais longo, desde os anos 1980, nos dá uma perspectiva melhor sobre o que é um período de alta inflação e permite, segundo este parâmetro, avaliar o patamar em que está nossa inflação acumulada em 12 meses apurada em agostode 2014. Devido aos elevados valores atingidos pela inflação nos anos de 1980 e 1990, utilizou-se um artifício para a construção do gráfico, que é apresentar os números em potências de 10. Assim, no eixo vertical, do percentual, tem-se uma escala que marca 10%, 100%, 1.000% e 10.000%, para a inflação acumulada em 12 meses.  A linha vermelha, por sua vez, corresponde a 6,5%, o limite superior da meta inflacionária. Percebe-se, nitidamente, além do fato de que a inflação nos últimos anos tem-se mantido sob relativo controle, quão problemático era o processo inflacionário da economia brasileira, nas décadas de 1980 e 1990.

Gráfico 3

 

Fonte: BCB.

Por fim, mas não menos importante, pois se está falando de algo que interfere profundamente nas expectativas dos investidores, dos consumidores, dos formadores de preços, é preciso olhar atentamente para o que está acontecendo no presente, isto é, o comportamento dos preços no período recente e, a partir destes dados, fazer um exercício sobre as possíveis evoluções para os próximos meses. O gráfico 3 apresenta a taxa de inflação mensal nos últimos 48 meses, mas numa escala diferente, em que o eixo vertical varia apenas de 0 a 1%. Com ele se percebe pelo menos dois aspectos importantes para o debate atual. O primeiro, o fato de que existe certa relação entre aumentos de preços e períodos do ano, o que se denomina sazonalidade. O segundo fato, mais importante, é que a inflação corrente está bastante reduzida. Em julho, a variação foi menor que em igual mês dos três anos anteriores e, em agosto, no mesmo patamar que em 2013 e menor que a observada nos anos de 2011 e 2012.

Dito tudo isto, pode-se afirmar que a inflação acumulada em 12 meses está mais alta do que gostaríamos, mas longe, muito longe de ter fugido ao controleeter-se tornado o problema número um a enfrentar.  Entre 2010 e 2013, a taxa de inflação anual foi, respectivamente, de 5,91%, 6,50%, 5,84% e 5,91%. Para 2014, como já mencionado, espera-se uma taxa em torno de 6,25%. Não há, nenhuma grande mudança de patamar.

Também, neste período, os trabalhadores, por intermédio da política de valorização do salário mínimo e da ação de suas entidades sindicais, têm logrado não só recuperar seu poder de compra como também ampliá-lo,através da obtenção de ganhos reais. No primeiro semestre de 2014, segundo pesquisa recente divulgada pelo DIEESE[1], 93% das negociações coletivas acompanhadas resultaram em ganho real, sendo este, desde 2007, o segundo melhor resultado observado.

Assim, em que pese ser inquestionável o fato de que a inflação é prejudicial aos salários e que é importante ser mantidasob controle, devemos tomar muito cuidado com a exacerbação do discurso anti-inflacionário, pois o mais importante, na perspectiva dos trabalhadores, é a preservação e ampliação do emprego e dosrendimentos do trabalho e seu respectivo poder de compra.

A inflação mensal atual está próxima a zero, há alguns meses. Se aceitarmos a ideia de que temos todos o mesmo interesse no combate radical à inflação, custe o que custar, podemos, além de derrubar preços, derrubar os empregos, nossos empregos. Numa situação de deflação, em que consumidores adiam compras esperando uma nova queda dos preços e investidores não investem em razão da piora em suas expectativas quanto aos resultados esperados,compromete-se renda e empregos. Esse é o caso, atual, dos países da União Europeia e, por isto, mais uma vez o Banco Central Europeu tenta estimular a atividade econômica através da diminuição dos juros básicos da economia, que em 4 de setembro foi reduzida a 0,05% ao ano.

Acompanhar semanalmente a evolução dos índices de preços e suas mudanças na segunda casa decimal pode ser de extremo interesse para os proprietários da riqueza financeira, mas está longe de ser o principal problema do ponto de vista dos trabalhadores.



[1] DIEESE. Balanço das negociações dos reajustes salariais do 1º semestre de 2014. Estudos e Pesquisas nº 73, agosto de 2014.




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