O QUÊ AS MANIFESTAÇÕES?

O QUÊ AS MANIFESTAÇÕES?

Escrito por: José Garcia Lima dirigente da CUT-RJ Publicado em: 18/06/2013 • Última modificação: 28/04/2015 - 18:23 Publicado em: 18/06/2013 Última modificação: 28/04/2015 - 18:23

Marcha pela família e liberdade, como quer um amigo meu? Com um parecido caldo de cultura da desvalorização, criminalização, mesmo, da política? Apontando o esvaziamento das instituições e sua substituição pela “manifestação” ampla, geral, multiuso? Ou estamos diante do exaurir do moderno sistema de representação e da dinâmica do (re)surgimento da clássica democracia direta, o ágora atenienses se reinstalando? Com uns cidadãos que teriam direito à manifestação e voto e outros que não?

A ver. O fato é que o subjetivo surgiu de repente. O que se iniciou com uma cândida manifestação que condenava o aumento de 0,20 centavos nos preços das passagens de ônibus, em São Paulo, tornou-se furiosa demonstração de descontentamentos variados, na qual cabe tudo: contra o aumento do preço de passagem, fora Dilma, contra os partidos, contra a política e os políticos, contra os estádios e a Copa em geral, contra a PEC 37, contra a distribuição dos royalties do petróleo, os gastos públicos, os impostos, o bolsa-família, os governos, um novo Cansei, atualizado e ampliado.  Para surpresa de alguns interessados nesse descontentamento generalizado, sobrou até para a magna rede de televisão.

Porque, na medida em que crescia a convocação, da qual participavam todos os interessados, dos mais difusos aos mais claros e objetivos, as possibilidades de reivindicações também se ampliavam e generalizavam. Até que o importante passou a ser o participar. Para o quê, se vê na hora. O produto final, mais manifestações. A maior vitória da convocação seria um grande número de participantes, crescente, que a notícia estaria pronta e a intimidação – de quem? – produzida.

Difícil, como evidencia outro amigo, é lidar com manifestações, como essas, que não definem palavras de ordem e nem apresentam as lideranças! O que negociar? Com quem negociar? Onde inicia e onde termina? Quais os limites de exposição e produção de fatos? A violência, nesse cenário, ainda que indesejada, ao menos nas falas gerais, era quase inevitável.

Os organizadores originais, que pugnavam pelo preço de passagens de ônibus urbanos, insistem na bandeira que dizem ser inamovível. Vá lá. Para o trabalhador comum, que tem vale-transporte ou que utiliza o bilhete-único, o aumento de 0,20 centavos valeria o envolvimento nas manifestações? Aparentemente, não, pois que não foram percebidos em número significativo nos atos. Ao menos não foram muito entrevistados nas entusiasmadas coberturas das redes de TV e dos jornalões. Por outro lado, para os estudantes o acréscimo seria nodal? Parece que sim. Afinal, foi tema recorrente nas entrevistas dos participantes – ao menos nas primeiras manifestações.

É saudável pensar que o tema transporte vem se somar a outros mais comuns quando se pensa em elementos que estruturam uma sociedade melhor – se não justa, menos danosa, perversa – como saúde e educação. Nesse plano, seria um belo resultado para as manifestações. O custo do transporte coletivo nas grandes cidades é muito alto e tem peso significativo nos orçamentos das camadas populares da sociedade. A qualidade desse transporte é assustadora. Caminhões que transportam gado tem a mesma plataforma de construção que os ônibus que transportam gente. Se pensarmos que nas grandes cidades os usuários do transporte dessa natureza levam até quatro horas por dia de casa para o trabalho e vice-versa, é possível imaginar o quanto isso significa. Daí ser justa, correta, a luta por transporte barato, de preferência gratuito, e de qualidade para todos. O que é impossível no atual padrão das concessões, que devem ser zeradas e rediscutidas, pelo poder público, que as produz, com todos os setores da sociedade, de forma que sejam refeitas em outros patamares de exigências. Mas de preferência que sequer o sejam. Pois tal como na saúde e educação, a admissão da hipótese do lucro na prestação desse serviço, essencial para a população, mercantiliza e vulgariza o que devia ser tratado como de interesse comum, prioritário, não sujeito à exploração.  O chamado transporte de massas, que tem de voltar a utilizar os trens urbanos e, em cidades como o Rio de Janeiro, intensificar a utilização de barcas, não pode estar longe do controle e da operação do estado. Há limites para o público não estatal.

Contudo, não me parece que isso baste. A discussão, tão em voga, de mobilidade urbana, no que diz respeito aos trabalhadores em geral e às parcelas menos protegidas da sociedade, ainda lhes reserva o plano do paliativo, do apenas minorar o sofrimento – corredores de trânsito, para os ônibus, por exemplo. Tratamento conjuntural, não estrutural. O necessário é que se ouse repensar a estrutura das megalópoles, suas dimensões, reinventá-las. Afinal, por que é que resta ao trabalhador morar longe dos locais de trabalho? Por que o privilégio do morar perto é reservado aos mais abonados? É possível que todos morem perto dos locais de seus afazeres? Megacidades como o Rio de Janeiro e São Paulo dispõe, nas suas regiões centrais, de um enorme estoque de espaços e imóveis abandonados, na maioria públicos, que pode ser destinado a programas de habitação popular. O que falta para desenvolvê-los, implementá-los? Quais os interesses que impossibilitam que a discussão se instale? As insinuações de que tal estoque se destinaria à especulação imobiliária são cabíveis? Melhor, então, que esse também passasse a ser tema das manifestações.

Quanto às demais bandeiras das manifestações, ao menos as mais citadas, cabem uns poucos comentários.

Contra a corrupção. O tema aparece em evidente decorrência da insistência das organizações tradicionais de meios de comunicação em fazerem do PT o único responsável por toda e qualquer hipótese de desvios de comportamento nos processos de financiamento de eleições. Um preço a ser pago pelos êxitos eleitorais do partido e pelas notáveis transformações que o tecido social brasileiro experimentou na última década. Mas a solução da reforma política, proposta desde o primeiro mandato de Lula, não parece interessar. Voto em listas partidárias, não é admissível. Financiamento público de eleições, nem pensar! Os dois pilares de todas as irregularidades que acontecem, historicamente, em toda a eleição.

Contra os partidos. A quem interessa que isso grasse? Fosse contra o PT, entenderia. Fosse contra a base aliada do governo federal, também. Mas contra os partidos em geral? É para corroborar o mais amplo contra a política e os políticos? Os autores imaginam substituir a política exatamente por o quê?

Contra o bolsa-família. Sei...

Pelo sexo-livre. Essa nem era das mais manifestadas, mas me deixou intrigado: eu pensei que fosse!




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