VIOLÊNCIA BLACK BLOC: QUESTÕES CONCEITUAIS OU AGORA FALANDO SÉRIO

VIOLÊNCIA BLACK BLOC: QUESTÕES CONCEITUAIS OU AGORA FALANDO SÉRIO

Escrito por: Roberto Ponciano, diretor do Sisejufe e da Fenajufe Publicado em: 09/09/2013 Publicado em: 09/09/2013

O sarcasmo e a ironia sempre foram armas da esquerda. Mas, falaram tanta bobagem que decidi falar sério. É uma maçã amarga esses Black Blocs, mas não há remédio senão comê-la inteira, depois de dar uma mordida nela. Vamos então à questão.

Não, como marxista eu não condeno todo tipo de violência. Sim, a violência é revolucionária, todas as mudanças de estrutura no mundo tiveram um momento de violência. Mas a violência é a “Parteira da História”, como diria Marx, ela não é a mãe, nem o pai. E Marx não colocou a violência como simples parteira à toa. Talvez seja uma dos aforismos menos entendidos de Marx, junto com um outro, “A religião é o ópio do povo”.

Se produz, há séculos, um estranho fenômeno do marxismo que eu apelidei de “marxismo religioso”, daí, seita e sectarismo é que consiste numa espécie de quixotismo de orelhas de livro. A pessoa não lê, ou lê pouco e mal Marx e junta umas orelhas de livro para tentar explicar a história. Marx não foi um apologista da violência pela violência, se assim fosse, talvez tivesse pouca ou nenhuma utilidade para o movimento social. Aliás, como humanista, quando prega o homem novo, a abolição do Estado e a educação dos cinco sentidos, Marx preconiza um estágio da sociedade em que nenhuma violência estatal será admissível ou necessária, porque não haverá mais classes sociais. Utópico? Bem, não é o objetivo desse artigo debater isso, digo que eu defendo essa Utopia, como objetivo final e com realizável, mas não é o objetivo desse pequeno artigo.

Tudo isso dito, Marx, filho de uma época de guerra e revoluções, um grande dialético, não cairia na carraspana de negar a violência, a existência dela como forma institucional de organização e estudar as formas necessárias para ultrapassar a violência organizada como Estado, daí a ideia de abolição da sociedade de classes e do Estado, com ela a abolição da violência de classes.

Mas, longe de ser um apóstolo da violência pela violência, Marx foi um ardoroso defensor da organização da classe trabalhadora em partido e no movimento social, incluídos os sindicatos para a tomada de poder e a ultrapassagem do sistema. Foi inimigo das teorias conspiracionistas (assim como Engels, Lênin, Trotsky, Gramsci) e espontaneístas, de sublevação da massa.

Para entender melhor a polêmica, tanto os blanquistas, quanto Bakhunin e a nascente teoria anarquista defendiam a sublevação espontânea do povo. Ou seja, não eram necessárias organizações revolucionárias, partidos, participação no Parlamento; a violência da sociedade de classes levaria a um embate espontâneo entre as formas “autogestionárias” da sociedade e a repressão estatal.

Numa Europa e em um mundo altamente agrários, com boa parte da produção ainda artesanal (portanto individualizada), é muito fácil entender a profundidade desse apelo. A destruição do modo de produção artesanal e gremial, a expulsão do homem do campo e a sua transformação em operários e proletários fabris são a explicação da práxis de o porquê a classe trabalhadora passar rapidamente das organizações blanquistas, conspiracionistas, para organizações com disciplina,  hierarquia, democracia horizontalizada, sim, mas comando verticalizado, de como a classe trabalhadora sair da ideia de uma organização espontânea para partidos, sindicatos, centrais organizadas.

Marx foi o vencedor prático do embate teórico. O avanço do capitalismo fez com que fosse imprescindível à classe trabalhadora uma organização centralizada e hierárquica dos trabalhadores em classe, os partidos operários. É uma invenção e uma necessidade da luta.

Marx, um lutador social prático, que participou de várias insurreições e tentativas frustradas de revolução, nunca prescindiu da ideia de organizações políticas da classe trabalhadora. Defendeu, inclusive, as alianças com os partidos democráticos da burguesia para o estabelecimento de repúblicas democráticas em oposição aos estados monárquicos ou de cunho bismarqueano, porque só neles seria possível se estabelecer uma luta profunda da classe trabalhadora e sua hegemonia no poder. Ou seja, Marx nunca foi um defensor da violência pela violência. Aliás, aí reside o grande fracasso de Hannah Arendt, ela promete comparar fascismo e comunismo, e descobrir na teoria marxista os germens das manifestações totalitárias na URSS.

O fato é que uma leitura atenta de Hannah Arendt vai demonstrar esse fracasso. Muitas das vezes Arendt passa da crítica à aberta apologia, quando admite que “os comunistas eram os únicos adversários consideráveis do nazifascismo na Europa”. Intelectual erudita e honesta, Arendt, ao contrário de conservadores desonestos, não chega ao ponto de mentir. A sua tese é a de que o totalitarismo tem duas bases, a quebra de uma tradição oriental que vem da polis grega, e aí ela faz um ataque direto à Stalin, mas não a Marx, que concebe como inteiramente dentro dessa tradição filosófica; do outro lado, uma equiparação do homo faber ao homo labour. Ou seja, a equiparação do trabalho assalariado do fazer humano.

O problema é que Marx, na verdade, nesse ponto não é um adversário de Arendt, mas seu companheiro de armas na diferenciação entre labour versus work, trabalho assalariado e trabalho em geral, na qual reside a base da Ontologia marxiana. Arendt não consegue provar seu ponto de vista inicial, até porque esta distinção marxiana é tão visível, que vai servir para Lukács fundar uma Ontologia materialista e marxista.

Voltando à questão da violência, Marx não é um ideólogo do totalitarismo, do Estado forte ou da violência pela violência, nem mesmo do levantamento voluntário das massas.
Isso afasta a teoria marxista, de um lado, completamente do nazifascismo, a fazendo a pior crítica e inimiga do nazismo, já que nega um Estado forte como representação da liberdade do marxismo, para Marx, se há Estado, há coerção e violência. De outro lado, isso afasta Marx da tática espontânea anarquista e do anarquismo que, sem mediações, sem passar por uma fase de transição, quer pular do capitalismo direto para a anarquia, um sistema sem Estado. Ainda que Marx pleiteie a abolição do Estado (e não sua extinção) ele preconiza uma fase transitória de reorganização das forças de produção e da sociedade.

Bem, fica bem claro que não há nenhuma simpatia, por parte de Marx, das estratégias e da organização anarquista no século XIX. Como não havia por parte de Lênin no século XX. Todavia, no século XXI a situação é muito pior. E por que isso? Ora se compreende organizações anarquistas no campo russo, que em muitos locais sequer se organiza através da propriedade privada, mas através de comunas de terras cultivadas coletivamente. A autogestão era um caminho natural, e o POSDR, depois PCUS, que tanto resistiu a ela, por fim, organizou o campo em fazendas coletivas, ainda que uma imposição do Estado, era a organização que melhor correspondia ao modo em que o povo russo tinha se organizado após a abolição da servidão.

Todavia, no século XXI, nas cidades, um anarquismo sem nenhuma tradição operária, não alicerçado no trabalho fabril gremial (extinto), ou na indústria, copia o espontaneísmo esperando, através da “imagética da violência”, uma revolta popular, que eles mesmos não sabem quais são os fins e não tem orientação de classe proletária.

O anarquismo é, até quase a metade do século XX, um movimento popular, classista e de massas. Com fortíssima penetração na classe operária e camponesa, apontava a autogestão como solução para os problemas da sociedade. Se era possível essa passagem direta ou não para a autogestão anarquista é outra questão.

Os Black Blocs, coletivos de classe média raivosa, que do movimento anarquista original só tem o nome anarquia, além de serem inimigos de qualquer organização da classe trabalhadora, não conseguem fazer uma mínima crítica de a quem servem. Aliando-se nos seus atos muitas vezes à direita mais perversa e oportunista e sendo usada por elas, passam a imagem tola que vão destruir o capitalismo quebrando a vitrine das lojas e os vidros dos bancos.

Não tem, essa mimese de movimento, pauta, tática, estratégia, objetivos e a única coisa que fazem é atrair, de um lado, um ódio difuso de uma parte da extrema esquerda, que fazendo uma péssima leitura de Marx apoia seus métodos; de outra parte, uma massa disforme, que junta elementos marginais da direita e que tem como objetivos utilizar da desestabilização que os Black Blocs provocam para minar o movimento social organizado e balançar os partidos progressistas que porventura estejam no poder. De um modo ou de outro, os Black Blocs servem à reação.

Sobre violência, Marx é um filho de uma era de revoluções, e acreditava na organização revolucionária, mas é filho de seu tempo. Nos seus textos a organização revolucionária ainda se baseava no embate da “guerra de barricadas”, nas quais o enfrentamento popular às forças de repressão se dava em condições muito menos desiguais do que no mundo de hoje, isso sem descuidar da inserção na vida político-partidária do seu tempo.

Todavia, em textos posteriores à Comuna de Paris, Marx, já apresentava sua descrença em um enfrentamento militar direto em barricadas (não na revolução), com os canhões, encouraçados capazes de bombardear cidades portuárias, fuzis de repetição e artilharia pesada, colocou a necessidade de se passar a uma nova fase da luta. Engels, que sobreviveu à Marx e foi seu testamenteiro ideológico, foi além, falou da necessidade de os trabalhadores se organizarem em partido, o POSDA, e não caírem em provocações policiais para não entrarem num conflito em que a correlação de forças lhes era completamente desfavorável.

Bem, estamos falando de “arte da guerra”, correlação de forças e tecnologia militar. Como dialéticos Marx e Engels desaprovavam condições de luta em que a classe trabalhadora estivesse em total desvantagem estratégica militar. Muito longe deste “tatibitati” da polícia violenta, Marx e Engels sabiam que a polícia e o exército são os aparelhos repressores de Estado e que existem como forma de monopólio estatal da força, e que não se deve enfrentar nem um dos dois em condições inferiores para ser massacrado.

Lênin seguiu na mesma linha, e quem o lê, verá que ele é contra o confronto armado até agosto de 1917, e só o defende, quando o Exército Branco está em frangalhos e as condições objetivas e subjetivas são favoráveis a um desfecho positivo para a classe trabalhadora. E posteriormente disse que o sucesso da Revolução Bolchevique não teria sido possível se não houvesse a Primeira Grande Guerra que impediu as potências imperialistas internacionais de intervir de forma mais dura na Rússia.

Ainda assim a Federação Soviética Russa foi invadida por várias potências estrangeiras e 17 países ocidentais mandaram tropas ou ajudaram os Brancos na Guerra Civil. Não há certeza de vitória numa sublevação revolucionária, mas uma possibilidade real, que devia ser aproveitada, depois de décadas de organização e luta não conspiratória. Em resumo, nem um dos grandes ideólogos marxistas foi um defensor da tática espontaneísta ou da violência para a violência.

Mutatis mutandis, num século XXI unipolar, com uma única grande potência sendo a polícia do planeta, sem o peso contrário do bloco socialista, com todo o aparato da violência nas mãos da burguesia, efetivamente, a possibilidade de uma conflagração revolucionária localizada no Brasil é zero. A política revolucionária possível é trabalhar a democracia burguesa de forma radical para tornar os aparelhos ideológicos de Estado em aparelhos anticapitalistas. E isso já é muito difícil nas atuais condições de luta, de crises ideológicas nas organizações partidárias e sindicais. Qualquer conflito armado favorece não aos trabalhadores, mas à reação.

Isso é marxismo, puro e direto, sem nenhuma condenação da violência, como se ela não existisse na nossa sociedade, mas reconhecendo que o monopólio estatal da violência não existe para defender o movimento social, mas para reprimi-lo. Dizer isso não é dizer que é impossível a ruptura, mas não é o objetivo desse texto falar sobre ruptura, o objetivo do texto é mostrar como a violência pela violência estéril, como forma de embates de rua contra as forças policiais, sequer arranha o sistema.

Que a baixa da taxa de juros foi uma arma muito mais radical e letal contra o rentismo e à lógica predatória do sistema, esse ano, do que quebrar a vidraça das agências bancárias, que redução pela metade dos juros nos governos Lula/Dilma (25% em FHC, 9,5% agora em Dilma, e temos que lutar para baixar mais), foi muito mais daninho do que os Black Blocs. Isto não significa que não tenhamos que estar nas ruas, embora tenhamos que escolher nossos parceiros e ter claro que um movimento sem rumo, estratégia, ideologia e propostas não nos representa.

Sim, os movimentos sociais e a esquerda têm de estar na rua o tempo todo mostrando insatisfação e aprofundando da democracia. Aprofundar a democracia não é aprofundar o tamanho da urna, táticas e estratégias de pressão popular reduzem a margem de manobra do sistema. É um sistema em que apenas 1% detém 99% da riqueza, mas o povo trabalhador que detém os outros 1% da riqueza detém 99% do voto.

As conquistas na estrutura democrática, que são mais desenvolvidas do que no tempo de Marx, fruto das conquistas das nossas lutas, permitem que tenhamos margem de manobra para socializar e democratizar as decisões políticas e façamos reformas anti-neoliberais e anticapitalistas. A dicotomia Reforma versus Revolução só existe entre aqueles que não querem que as reformas mexam nas estruturas de um sistema falido.

Colocar povo na rua para reformar as estruturas hierárquicas e expropriatórias do capitalismo é ótima estratégia no momento em que o capitalismo não tem nenhuma pauta possível de disputar corações e mentes. Com uma pauta estratégica global e internacional, que vá para além da bobagem da “violência imagética” dos Black Blocs é possível, sim, pressionar o sistema que não é eterno, é apenas um modo de produção organizado pelos homens e que pode ser destruído por nós mesmos.

E nesse processo, em lugar de retroagir para formas de organização pré-marxistas, temos de juntar a força das organizações tradicionais dos trabalhadores, partidos, sindicatos, centrais, disputando sua organização e ideologia, colocando a ideologia na ordem do dia, e congregar nelas os desempregados, os excluídos do sistema.

Fazendo isso, da tática da violência gratuita dos Black Blocs passaremos a tática do enfrentamento sistêmico do capitalismo. O capitalismo está numa crise estrutural e civilizatória, cabe aos trabalhadores se organizar sistematicamente para eliminá-lo.




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