Petrobrás será a bola da vez

Petrobrás será a bola da vez

Entrevistado(a): Gerson Castellano
Petroleiro

Escrito por: FUP

Publicado em: 23/04/2015 - 12:57 | Atualizado em: 23/04/2015 - 12:57

 "Não temos dúvida que em caso de vitória de um modelo neoliberal, Aécio ou Marina, a Petrobrás será a bola da vez"

"Não é novidade para ninguém que uma volta da política neoliberal será uma tragédia para todos os trabalhadores", afirma o diretor da Secretaria de Formação Sindical da FUP e, representante do Sindiquímica/PR, Gerson Castellano, que acompanhou toda a luta pela reincorporação da Fafen-PR (antiga Ultrafértil), privatizada e comprada pela Vale em 1997. De lá pra cá, Castellano faz parte dos trabalhadores que nunca desistiram da luta pela reestatização da empresa.

Confira a entrevista:

Em junho de 2013, a antiga Ultrafértil (rebatizada para Araucária Nitrogenados) foi reincorporada ao Sistema Petrobrás, como Fafen-PR, após duas décadas da sua privatização. O que você tem a dizer deste primeiro ano de reincorporação? Como tem sido a realidade dos trabalhadores da unidade?

Na verdade ainda não aconteceu a reincorporação. A empresa foi adquirida e está como subsidiária. Existe um processo em andamento visando a incorporação, o qual estamos aguardando ansiosamente. Mas, mesmo como subsidiária, já observamos mudanças. Principalmente na relação entre sindicato e empresa, uma vez que após 20 anos de limitações de acesso à unidade, podemos hoje fazer visitas constantes, sem restrições e controle, coisa que era comum na época da iniciativa privada. Para vocês terem uma ideia, teve épocas que éramos proibidos de acessar a unidade. Em outros períodos, era exigida uma agenda de visitas e tínhamos o acompanhamento de vigilantes (estes casos geraram uma denúncia na OIT)

Para os trabalhadores ainda aguardamos a incorporação definitiva ao sistema. Pois apesar dos 20 anos de pressão da iniciativa privada, tínhamos um Acordo Coletivo e de PLR robustos. Neste processo visando a incorporação, tivemos que abrir mão de clausulas históricas, e conseguimos manter outras até a finalização do processo de incorporação.

 Como foi a luta dos trabalhadores que nunca desistiram da reestatização da fábrica?

Foram 20 anos de muita resistência. Ficamos em mobilização permanente, do Sindicato e trabalhadores, durante todos os 20 anos em que a Ultrafértil esteve sob controle privado. Mobilização que tinha como objetivo a reestatização e de denunciar os prejuízos para a população e para o Brasil causados pela privatização. 

Todas essas ações, durante todos esses anos, nunca tiveram um caráter corporativo de atender apenas os interesses dos trabalhadores da empresa, mas sim de se compreender a importância da empresa para o desenvolvimento da agricultura, em especial dos pequenos agricultores e da agricultura familiar.

Neste processo, o sindicato contou com diversos parceiros, como o SINDIPETRO-PR/SC, MST, USW (canadenses que enfrentaram a VALE) e a FUP, que na reta final foi fundamental para reverter o processo de privatização.

Neste período, realizamos diversas ocupações, paralizações, greves, atrasos, campanhas de mídia e audiências públicas, para discutir a privatização do setor. Discutir sobre quem ganhou e quem perdeu neste processo.

A nossa luta só continuou por conta da clareza ideológica de entender o nosso lado em todo o processo, de não termos recuado um centímetro em relação àquilo que sempre acreditamos que é o papel do sindicato na luta em defesa dos interesses da população e dos trabalhadores.

Eles também foram reintegrados?

Sim, o processo de aquisição da planta de Araucária envolve também o corpo técnico. Precisamos lembrar que muitos dos trabalhadores ainda na ativa, entraram na empresa através de concursos público do final dos anos 80. Além disso, são trabalhadores altamente especializados e com muita experiência na área petroquímica. Hoje, para formar um Técnico de Operação Júnior para operar nossa unidade, envolve um treinamento que ultrapassa 3 anos.

Qual foi a realidade dos petroquímicos da Araucária Ultrafértil em comparação ao cenário atual, da Fafen-PR?

Vivemos períodos duros, de muita repressão e ameaças de demissão constantes. Também não existiam planos de manutenção e recuperação da unidade. As empresas que adquiriram a unidade praticamente a sucatearam, com o auxílio das gerencias irresponsáveis e inconsequentes que infelizmente ainda estão na unidade. Porém, hoje o quadro é de esperança. Na parada de manutenção que está sendo realizada, muita coisa está sendo feita, o que tranquiliza os trabalhadores. Nas questões de RH, aguardamos ainda a incorporação definitiva para avaliarmos melhor.

Os trabalhadores são conscientes de que esta mudança só foi possível devido à resistência e luta do movimento sindical e, agora, com a intervenção do estado neste estratégico setor?

Os trabalhadores, na sua maioria, foram os responsáveis por este retorno ao sistema Petrobrás.  Foram eles que apoiaram e incentivaram o sindicato a seguir nesta luta. Todos os atos e ações do sindicato tiveram uma participação maciça dos trabalhadores. Eles estão muito orgulhosos e conscientes de que sem a resistência e luta nada disso seria possível. A única coisa que eles lamentam, são uma minoria de gerentes e aspones que ajudaram a sucatear a unidade e que continuam a frente de seus cargos. Mas quem sabe quando ocorrer a incorporação isso mude? É o que todos esperam...

A FUP teve participação fundamental em todo o processo de luta pela reincorporação da unidade. O que representa pra você, agora, representar a categoria petroquímica do Paraná na Federação Única dos Petroleiros?

Sem dúvidas, a FUP foi e é essencial para a consolidação do processo. Estar na FUP é um orgulho e uma grande responsabilidade. Fazer parte de uma federação com a importância que a FUP tem e, com o compromisso que ela tem com os trabalhadores, a sociedade e os movimentos sociais é algo que vai demandar muito empenho, mas com certeza muito prazer também. Prazer em poder contribuir para o fortalecimento da sociedade através das lutas da FUP e seus sindicatos filiados.

Agora neste período de eleição presidencial, o país vive um fenômeno perigoso, que é a tentativa de despolitização da juventude, por parte da direita conservadora. Na sua opinião, grandes conquistas como a reintegração da antiga Ultrafértil e, da Refap, em 2012, passam despercebidas aos olhos dos trabalhadores mais jovens do Sistema Petrobrás?

Sem dúvidas. Infelizmente não só os mais jovens, mas muitos trabalhadores não tem a noção histórica do que é o retorno destas empresas para o sistema Petrobrás. Os processos de privatizações dos anos 90 foram extremamente danosos para a sociedade. Demissões e precarização das condições de trabalho foram a tônica da iniciativa privada à frente das empresas privatizadas. A sociedade perdeu, pois as vendas destas unidades de nada melhoram as condições da população. Ao contrário, na Ultrafertil, com os preços controlados por um oligopólio multinacional, o alto preço dos fertilizantes fez com que os alimentos, e por consequência a inflação, atacasse o poder de compra da população.  Os que não conseguem ver isso, infelizmente não o fazem por achar que isto é muito distante da realidade deles.

Com base na sua experiência da Ultraféril da era das privatizações e, agora, em tempo na reincorporação da Fafen-PR, é possível citar pequenos exemplos de como a unidade voltaria a ficar, no caso da volta de um governo neoliberal e a favor das privatizações?

Não é novidade para ninguém que uma volta da política neoliberal será uma tragédia para todos os trabalhadores. Pois além de suas políticas econômicas baseadas em teóricos comprometidos apenas com o mercado de ações, a busca desenfreada pelo “estado mínimo” fará com que diversas privatizações ocorram. E uma delas é a do sistema Petrobrás.

Para vocês terem uma ideia, umas das empresas que adquiriu a Ultrafertil foi a VALE. A VALE foi privatizada em 1997 e seus métodos de gestão atuais são extremamente agressivos e intimidadores. Demissões, assédio-moral, ameaças, desprezo pelas instituições são a marca da VALE nas relações com os trabalhadores. Nós fomos duas vezes até a OIT contra a VALE. No Canadá em 2009, eles não negociaram com os trabalhadores que ficaram mais de um ano em greve. Hoje enfrentamos dificuldades na Petrobrás, em função de termos gerentes poucos comprometidos com segurança, algo que precisamos mudar, mas na VALE a questão de segurança e diálogo é algo inexistente. Inclusive eu brinco, que na VALE a política é do “Beijinho do Ombro”, onde é só “tiro, porrada e bomba”!

E para nós, que passamos por uma privatização, não temos dúvida que em caso de vitória de uma modelo neoliberal, seja Aécio, ou Marina, a Petrobrás será a bola da vez. De forma rápida, se utilizando da mídia que já vem batendo na empresa nos últimos meses ou de forma lenta, retirando investimentos, não fazendo manutenção e esperando acidentes acontecerem para justificar uma privatização.

Nós acreditamos que a Petrobrás é uma ferramenta de desenvolvimento da nação, e não aceitaremos que manchem seu nome ou a usem em negociatas.  Também lutaremos para oportunistas e aventureiros não ponham suas mãos em algo que é patrimônio nacional. Para isso vamos lutar pela eleição do único projeto viável de fortalecimento da companhia, que é o projeto da Presidenta Dilma e do PT!




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